13 de Agosto 2016 - O melhor do fado com Camané na noite de 13 de agosto no Festival do Marisco

Infinito Presente é o mais recente álbum de Camané, que o fadista apresenta na noite de 13 de agosto no Festival do Marisco. Um dos melhores intérpretes de fado da atualidade vem a Olhão e prevê-se, claro, casa cheia no Jardim Pescador Olhanense.

Cedo começou a afirmar-se como uma das mais importantes vozes masculinas do fado depois do 25 de Abril. Infinito Presente, sétimo álbum de estúdio de Camané (que toma o título de empréstimo a um verso de David Mourão-Ferreira), está todo ele ancorado na ideia de tempo. A passagem do tempo, o tempo que é memória, o tempo em que vivemos.

Infinito Presente começou a ser preparado há 20 anos. A sonoridade que aqui encontramos é “um contínuo, uma depuração permanente de uma ideia de fado” que então começou a ser desenhada entre o fadista Camané, o produtor José Mário Branco e, progressivamente, a letrista Manuela de Freitas, e os músicos José Manuel Neto (guitarra portuguesa), Carlos Manuel Proença (viola de fado) e Carlos Bica (contrabaixo).

Este espaço, criado para a voz deve-se ao facto de, como diz José Mário Branco, Camané ser “um intérprete excecional, um talento”. “Tem uma voz bonita mas isso não interessa nada. De vozes bonitas estamos nós fartos e não nos dizem nada. O que interessa, sobretudo no caso de um fadista, é parecido com o teatro: a capacidade de o fadista ser verdade”.

Oiça-se a guitarra penetrante de José Manuel Neto em Desastre, a viola tentacular e finíssima de Carlos Manuel Proença em Quatro Facas ou o contrabaixo de Carlos Bica quase a cantar em Aqui Está-se Sossegado e Triste Sorte, ou o modo como os três empurram Camané para a estarrecedora interpretação de Chega-se a Este Ponto, canção de intensa atualidade.

“Tratou-se [ao longo deste 20 anos] de criar uma sonoridade que tem que ver com a minha forma de estar no fado”, explica Camané. “Por um lado, tentar nunca desvirtuar o lado do fado tradicional, mas tentando, de alguma maneira, criar uma determinada roupagem que faz sentido pelos poemas que canto”.

“Gosto muito da ideia de um disco ter uma história, ter um tema que acontece mais”, refere Camané. Mas o tempo, num sentido de resistência aos anos e à sua capacidade de ser ressuscitado mais tarde, aparece igualmente na gravação de dois fados gravados há quase cem anos pelo bisavô de Camané, José Júlio Paiva. “São dois fados que descobrimos num disco de 1925”, conta.

Em cada um dos 17 temas de Infinito Presente abunda aquilo a que Camané chama “uma forma de chegar a casa”. “E esse é o feito maior de Infinito Presente e destes 20 anos de parceria com José Mário Branco: a de chegarmos também a Camané como se frequentássemos a sua casa, como se a sua casa fosse também a nossa”, como refere Gonçalo Frota. Também nós, em Olhão, queremos alcanzar esse sentimento ao ouvirmos Camané.